Gastronomia por Roberta Sudbrack
11/06/2007 ..
Aventuras de uma chef na terra da garoa
Cozinheiro que se preze só viaja para comer. Minha última viagem relâmpago a São Paulo foi de deixar saudades. Tenho o costume de sempre fazer a primeira refeição em terras alheias num lugar que eu já conheça. Em Paris, vou para a Rotisserie du Beaujolais e, em São Paulo, direto para o restaurante Jardim de Nápoles. Normalmente peço a mesma coisa que comi na última vez – coisas de um ser romântico – em Paris, o pato novo assado com purê de batatas, e em São Paulo, o polpetone, como não poderia deixar de ser. Depois disso estou pronta para encarar o que vier.
E o que vem em viagem de cozinheiro é sempre, comida, comida e mais comida! Poucas horas depois de me despedir do Jardim de Nápoles e de uma ótima garrafa de Chianti clássico, fui conhecer o antológico Bar Balcão. Entro, procuro meus amigos e encontro... mais amigos! Ninguém vai acreditar, mas numa cidade como São Paulo, repleta de bares e vida noturna, encontrei a nossa Ale! Sem perder tempo e já pensando nas refeições do dia seguinte, tratei logo de combinar um tour gourmet pela cidade. Não tem nada melhor do que descobrir os encantos gastronômicos de uma cidade ciceroniada por uma minhoca da terra!
No Bar Balcão, comi de tudo e tudo era bom. De canapés de roast beef a cheese burguer, tudo delicioso e impecável. Não vejo a hora de voltar, mas acho que dessa vez vou marcar com a Ale, para não correr o risco de não encontrá-la!
No dia seguinte, rumamos para o Mercado Municipal, era um sonho conhecer aquele paraíso. Comprei um remédio para gripe na farmácia ao lado do mercado e a farmacêutica me disse: “você sabe que não pode tomar bebida alcoólica enquanto estiver tomando esse remédio, não é?”. Guardei o remédio na bolsa e rumei para barraca do pão com mortadela. Quem pode comer pão com mortadela sem uma cerveja gelada para acompanhar?
Missão cumprida no mercado, rumamos para o Empório Santa Luzia em busca de geléias Bonnes Mamans! Um pit stop no pão de queijo da Hadock Lobo e uma paradinha para repor as energias no Hotel. À noite, matei a vontade de comer sagu no Spot, restaurante simpático de Sampa! Na manhã seguinte, a caminho do aeroporto o encontro com um oásis chamado Padaria Ceci. Tudo, absolutamente tudo, maravilhoso! Misto quente quase perfeito, pão com lingüiça, sonho, sonho, sonho! Só não comi a lasanha em pé no balcão porque a odisséia dos aeroportos me aguardava, mas não vejo a hora de matar essa vontade!
Até!
08/06/2007 ..
As possibilidades de uma conversa...
Tudo pode acontecer. Todos os caminhos podem levar a Roma, ou não. Toda a coerência pode ser respeitada, desperdiçada ou simplesmente perdida. Todas as gargalhadas podem ser dadas ou substituídas. Toda a angústia pode ficar clara ou se manter escondida. Tudo pode se manter simples ou insuportavelmente complexo.
Tudo pode acontecer numa conversa.
Toda a realidade pode se transformar. Tudo pode mudar, todos os lados podem ser vistos, todos os pontos avaliados. Toda roupa suja lavada, passada e engomada. E olha que a goma às vezes faz falta!
A gente deveria conversar mais, sobre tudo. Sobre cinema, sobre vivências, sobre cozinha, sobre amor, sobre os sonhos. A gente deveria dar mais importância a esse acontecimento simples – cada dia mais complicado – que é conversar. Afinal como bem lembrou nossa linda Ministra da poesia, Nietzsche já dizia: “As relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar”.
A arte de conversar. Parece bobagem, mas não é. Conversar não é como andar de bicicleta: aprendeu, não esquece mais. Conversar é uma arte, e as artes são complexas na sua simplicidade. Requerem reflexão, contexto, mente aberta e uma boa dose de conquista.
Há que se conquistar a conversa! Como se conquistam as amizades, os amores, as receitas de família!
Até!
06/06/2007 ..
Vamos jogar peteca na cozinha?
Nada melhor do que uma boa comida para acalentar a alma quando as estruturas se remexem. Eu confesso que sou daquelas que adora as coisas nos seus devidos lugares, seja dentro da cozinha ou fora dela! Quando as estruturas começam a trepidar não acho a menor graça. Mas aprendi com a vida e com os velejadores brilhantes, como Amyr Klink, que os ventos fazem parte dessa história e por vezes, de tão fortes, não deixam nada no lugar.
Nessa hora a melhor saída, como diria o antológico Leão da Montanha, é a da direita! Mas se a direita não der na cozinha, contrarie o Leão e siga pela esquerda mesmo! O importante é estar na cozinha. Nem consultório de terapia é tão bom nessas horas!
Entrar na cozinha sozinho, quebrar o silêncio invisível dos utensílios, vestir o avental e...viajar.
Não existe nada mais intenso na vida do que viajar. Qualquer coisa que você goste, pode ser uma viajem. Pode-se viajar sem sair de casa, da cozinha! Basta deixar o fogo te acarinhar. Os ingredientes interagirem, o aroma transportar. As viagens são inúmeras, surpreendentes e sempre únicas. Depende de a gente definir, ou não, o itinerário.
Nosso Capitão Rafael, que na minha avaliação já é almirante, me enviou essa lição de vida, do brilhante Amyr Klink, que acho, define toda a essência da vida:
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”
Vamos jogar peteca na cozinha! Deixá-la cair, jamais!
Até!
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